O campeão brasileiro da Rua B, quadra 15


Foto: Shea Rouda

O campeão brasileiro da Rua B, quadra 15

Há exatos 20 anos, quando encerrei minha carreira, ainda havia um conceito pétreo que creio ter se perdido no tempo. Embora regidos por poucas entidades regionais, o futevôlei tinha um grande encontro marcado, uma vez por ano, em algum lugar do Brasil, para a disputa de um (eu disse um) único campeonato brasileiro. Dali sairia o grande campeão daquele ano.

A dupla ou equipe que o conquistava tinha o direito de carregar esse “cinturão” até o ano seguinte, quando o colocava à prova novamente. Percebo hoje uma profusão de eventos, muitos simultâneos, o que aponta um claro desperdício de força e dinheiro, e o pior; vários desses eventos se autointitulam de “campeonatos brasileiros”.

Sou absolutamente a favor de eventos locais. São eles que dão o primeiro combustível competitivo para os atletas iniciantes e intermediários. Também ajudam a movimentar a economia regional, gerando receita para quem apoia, promove e muitas vezes até para quem participa. São neles que clientes locais têm a chance de experimentar uma cota de patrocínio que cabe no seu bolso. É dali que saem os Guiguis, os Vinicius, os Belos, os Águias, Tatás e Renans de hoje. Ninguém nasce ídolo mundial! Muitas das vezes começam na sua rua, no seu bairro, praia ou cidade. Portanto, há de se comemorar a profusão dos eventos de pequeno e médio porte que hoje pipocam por todo o nosso território.

Eles são a prova cabal de que o futevôlei chegou lá, naquela cidadezinha ou povoado, e é praticado não por um indivíduo, mas por um grupo de atletas que resolveram competir entre si. Saudável também são os convites para que equipes de melhor nível técnico e até atletas consagrados participem e promovam clínicas nesses eventos. Desde os anos 80 esse tipo de intercâmbio acontece e ele continua sendo muito bem-vindo. Vale também para fora do Brasil. Os atletas brasileiros sempre foram referências no cenário mundial e hoje quase 100% deles atuam em clínicas ou ministram aulas para “gringos” mundo afora.

O Rio de Janeiro é e sempre foi um dos polos geradores de craques fora-de-série. E não é mais por conta da escassez de atletas de alto nível em outros locais. Do Renan (considerado o Pelé) de 1985 ao Renan (recém campeão) de 2018, se passaram mais de 30 anos e o Rio continua a produzir craques. Do Marcelinho (parceiro de Leivinha) de Ipanema, de 1982, ao Marcelinho (parceiro de Eduardinho) de Ipanema, de 2012, idem. Hoje se pratica futevôlei no mundo todo. De Jericoacoara à Berlim! Um jogador fora-de-série surgirá em breve de um povoado indígena. Podem escrever! Mas esse povoado não pode chamar o seu evento local de nacional sob pena de não nos sentirmos representados, como brasileiros que somos, pelos seus campeões. Não importa se é no Alto Xingu, na Praia do Rosa ou em Copacabana.

Uma competição nacional tem o dever de ser chancelada e planejada para apontar o melhor de um país. O esporte não pode incorrer no erro de ser seduzido a uma frequência mensal ou semanal de uma chancela de tamanha envergadura. Daqui a pouco teremos o campeão brasileiro da Páscoa vencido pelo campeão brasileiro do Natal anterior. Ou uma final entre o campeão brasileiro da Linha Amarela contra o campeão brasileiro da Rua B, quadra 15.

O desafio está na gestão e ordenamento desses eventos, que são necessários, como disse acima, mas que precisam de cessão de chancela para se denominarem com representatividade nacional.

As respostas para esse desafio estão espalhadas pelo mundo todo e podem ser perfeitamente copiadas e adequadas por aqui. Só precisa de vontade, organização e planejamento.

Os circuitos nacionais e mundiais de modalidades semelhantes, como surfe e vôlei de praia, por exemplo, surgiram do mesmo desafio: demandas locais por eventos nacionais. Isso é ótimo! Significa que por ali vão competir os craques da atualidade, haverá espaço para participação local (com White Cards ou convites para atletas locais, como ocorre no vôlei e no surfe) e as etapas ajudarão a definir o grande campeão do ano.

Ou seja, bom para o ciclo todo: atletas, mídia, investidores e promotores. É um ciclo autossustentável. Nada que ninguém não conheça, mas que para ser implementado requer foco, planejamento e gestão.

Hoje temos um Brasil praticando e promovendo o futevôlei, mas de forma totalmente desordenada. Não é muito diferente lá fora, mas está muito melhor do que aqui. Creio que a missão conferida às confederações desportivas no Brasil, em sua maioria, se perdeu. Uma parte substancial do suor dessas entidades deveria se dar:

  • Para o uso do esporte como plataforma educacional e de inclusão social;

  • Para formação de novos atletas;

  • Para a prática e disseminação da sua modalidade nas escolas (aí sim através de eventos, aulas, cursos técnicos etc.…);

  • E também, e não só, para o alto rendimento.

Venho dando palestras para difundir o Futevôlei e compartilhar a minha experiência como atleta. Seja em empresas, com seus desafios competitivos e corporativos, seja em colégios com um perfil mais acadêmico, entendi ser esse um papel importante e a parte que me cabe em agradecimento por tudo que o futevôlei me deu. Mas é com as crianças e jovens que a minha experiência ganha outra dimensão.

Quando falo que o futevôlei é nosso, que foi criado aqui, no Brasil, em Copacabana, vejo os olhos dos meninos e meninas brilharem com um misto de surpresa e orgulho.

Muitos dali poderão partir para a segunda experiência e começarem a praticar Futevôlei.

Alguns podem vir até a competir. Poucos se tornarão atletas de ponta, mas espero que os que se aventurem, ao conquistarem os seus primeiros títulos tenham sonhos e conquistas mais dignas do que o de ganhar o campeonato brasileiro da sua rua.

Ayrton Mandarino

CEO Footvolley4ever

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